Conforme estatísticas da Secretaria Estadual de Educação, a rede de ensino do Rio Grande do Sul conta 48.663 professores, distribuídos em 2.572 escolas nos 496 municípios do Estado.
Durante seus turnos de trabalho, com muita paciência e dedicação,
Fabiana enfrenta três realidades completamente diferentes: crianças de até dois
anos do Ensino Infantil, adolescentes do Ensino Fundamental e Médio, e o EJA
(Educação e Jovens e Adultos), que conta com alunos das mais diversas faixas
etárias. Em meio a problemas matemáticos, expressões numéricas, frações e
fórmulas de cálculo, o brilho que Fabiana carrega no olhar ao falar sobre sua
escolha profissional mostra o orgulho que ela sente em ser professora.
Considerando a distância que compreende o trajeto entre as Escolas João
Canabarro, que fica em General Câmara, Carlos Arno Pretzel, que se localiza em
São Jerônimo, e a Escola Vila Cruz de Malta, em Charqueadas, Fabiana percorre
cerca de cinquenta quilômetros diariamente para dar suas aulas.
- Moro em Charqueadas e preciso estar em General Câmara às 7h30min.
Então, tenho que sair de casa às 6h45min para não me atrasar. O fato de as três
cidades em que eu dou aula serem próximas facilita a minha locomoção e a
adaptação com essa rotina. A distância não chega a ser um grande problema, mas
é um dos fatores que dificulta, pois torna o dia muito mais cansativo –
comenta.
– Nunca tive problemas com alunos, sempre fui respeitada. Acho que por
ser professora de matemática, eles ficam mais apreensivos com a minha aula e
tentam prestar mais atenção no conteúdo. Eu procuro ter uma relação de amizade
com eles. Muitas vezes, no meio da aula surgem assuntos que não são ligados à
disciplina, mas que são do interesse da turma, e eu procuro não limitá-los no
sentido de expressarem-se – revela.
Preocupada com os rumos que a educação
tem tomado, ela também ressalta que a presença dos pais na escola é fundamental
para o crescimento do aluno, tanto no aprendizado quanto no amadurecimento
pessoal.
- A única coisa que eu noto neles, cada vez mais, é a falta de limites.
Também sinto falta da presença dos pais na educação dos alunos, de virem à
escola, de perguntarem sobre o comportamento dos filhos, se eles têm alguma
dificuldade. Uma vez chamei para uma conversa os pais de um aluno que não
prestava atenção na aula e que obtinha resultados ruins nas avaliações. Depois
disso, ele se tornou o melhor da turma, não só na minha disciplina, mas em
todas as outras. Por isso acho importante essa participação da família no
ambiente escolar, é bom pra todas as partes, todos tem a ganhar – acredita.
Como todo bom professor, Fabiana estabelece alguns métodos de aplicação
de conteúdos e de avaliações. Atenciosa, ela tenta tornar o ensino da
matemática mais leve e simples, pois sabe que a disciplina exige um esforço
maior por parte dos alunos. Além de dominar os números, Fabiana também domina
totalmente o andamento das aulas, que mais parecem uma conversa amigável sobre
cálculos.
- Claro que existe a cobrança, mas procuro fazer isso da maneira mais
agradável possível. Tenho um sistema de carimbos, especialmente com os alunos
do 6º ano, que funciona da seguinte maneira: quem fez a lição, ganha uma
carinha feliz no caderno, que no final do trimestre vale alguns pontos extras,
como motivação pelo esforço no trabalho, e eles valorizam muito isso. Ao final do
ano letivo, faço um balanço do que fiz e do que poderia ter feito em aula.
Analiso tudo que foi proposto e realizado, sempre buscando melhorar o andamento
das aulas e o desempenho dos alunos para o próximo ano – afirma.
Educação infantil, um gratificante
desafio na trajetória de Fabiana
- Eles nos contam muitas coisas de casa, eles têm a necessidade de falar
sobre isso. Na maioria das vezes, não pedem conselhos ou opiniões, querem
apenas contar o que acontece. Aprendi muito com meus alunos da Educação
Infantil, é uma experiência desafiadora e gratificante. As crianças entram aqui
sem saber falar, ou falando poucas palavras, e a gente vê toda a evolução e
crescimento deles. É uma coisa fantástica, surpreendente, não sei dizer bem o
que é. Isso me fascina - conta emocionada.
Ensino Médio e EJA durante a noite
Mas o dia de Fabiana ainda não acabou.
À noite, ela percorre mais dez quilômetros até Charqueadas, onde dá aula para
turmas de Ensino Médio e EJA. Ela relata que os alunos desse turno, por serem
mais maduros e terem outras responsabilidades além da escola, demonstram grande
interesse em aprender e vivenciar o ambiente escolar, para no futuro terem
condições de passar no vestibular ou no ENEM.
- No EJA, a maioria do pessoal é muito interessada em aprender. Mas eu
vejo que eles também buscam outras coisas na sala de aula, como trocas de
experiências de vida com os colegas e também com os professores. Certa vez uma
senhora, minha aluna no EJA, disse que ia pra aula pra fugir dos problemas de
casa, e isso me marcou muito – lembra.
Ao final da noite, depois do longo dia de ensinamentos e aprendizados, Fabiana
continua demonstrando amor e dedicação ao trabalho, apesar do cansaço.
Ela ainda conta que tem alguns outros sonhos a realizar, fica pensativa
por um tempo e revela:
- Não quero parar de estudar, pretendo fazer mestrado, doutorado e dar
aula em alguma universidade, sempre na área da matemática – conclui.